sexta-feira, 3 de agosto de 2012



Ela anda feito um esquilo. É engraçado cara, vai por mim. Os seus cabelos de um loiro indefinido presos em um rabo de cavalo fazem uma dança sincronizada enquanto ela apressa o passo. Eu gosto do jeito que os quadris dela se locomovem, de como os pés dela – incrivelmente minúsculos – parecem querer engolir o mundo. Ela ama saias, e quando digo isso, quero dizer que de todas as vezes em que nos encontramos, no mínimo 90% delas ela estava vestida com as mesmas. E combina com ela. Sei lá, ela é toda esbelta e magricelinha (e ninguém no mundo sabe o quanto ela odeia isso). Lembro da época em que ela passou dias se alimentando de comidas calóricas para engordar. Eu sei, ela é pirada. Mas a gente sempre se entendeu. Eu não faço ideia para onde ela está indo com tanta pressa, exatamente às 8:27 da manhã, quando ela definitivamente odeia acordar cedo, mas no momento, tudo o que me sinto adepto a fazer é continuar o meu caminho. Faz dois meses que a gente não se vê mais. Dois meses. E vê-la agora, andando a poucos metros de mim, sei lá cara, me deixa aflito. Estou morrendo de vontade de agarrá-la pelo braço e soltar um “E aí”, mas acho que ela me mataria. Ela odeia tomar susto, e acima de tudo, acho que passou a me odiar também. Mas não quero pensar sobre isso, vamos voltar pra parte de que eu to com muita, mas muita vontade de rever aquele rosto miúdo que se aparenta ao de uma Barbie. Os pés dela, embrulhados por uma sapatilha cor de rosa, viram a esquina para a direita enquanto eu deveria virar para a esquerda. Entro em pânico por cinco segundos. Paro e finjo estar interessado na vitrine de uma loja fabricante de cortinas para ganhar um pouco mais de tempo enquanto eu decido se sigo essa guria que definitivamente não quer me ver nem pintado de ouro – palavras dela – ou se continuo a minha caminhada rumo ao supermercado. Ok. Primeira opção. Ela observa o relógio de pulso e apressa ainda mais o passo. Pára. Olha para a direita, enquanto eu rezo mentalmente para que ela não perceba a minha presença, e adentra no estabelecimento que aparentemente não estava no roteiro. Maravilha! Não faço ideia do que fazer! Ok. Respira. Começo a andar rápido o suficiente para não me arrepender. Passo reto por onde ela entrou (uma livraria, típico dela). Eu sei que estou sendo um puto de um covarde, e que deveria correr atrás da guria que, meu Deus, me faz uma falta absurda, mas… Ela não quer mais, ta legal? Eu sei. Ela não quer. Sei lá se algum dia quis. E além do mais – Woops. Um cutucão. Paro. Não preciso me virar para saber quem é. 
”Eu vi você me seguindo.” Ela arqueou as sobrancelhas rarefeitas de um jeito meio peculiar. Os lábios que agora estão cobertos por um batom rosa são pressionados entre si. Ela cruzou os braços e me encarou com os olhos do tom de azul mais incrível que eu já vi. “Não te segui.” Deixei escapar um riso nervoso e agarrei o braço dela levando-a até o canto da calçada. “Ohhh, sério?” Ela se desvencilhou do aperto das minhas mãos. Os olhos se contraíram. “Entrei na livraria pra ver se você ia ser sacana o suficiente para entrar também. Vejo que evoluiu um pouco.”  “Você e sua mania imbecil de achar que sempre é o centro das atenções.” Aumentei o meu tom de voz e puxei a atenção de uma velha que passava ao nosso lado. 
“Talvez porque, de fato, eu seja o centro das suas atenções.” Ela frisou o ‘suas’ de um jeito lindo, cara. Sei lá, eu gosto do modo que ela mexe os lábios. De como as expressões faciais dela se alteram e de como ela soa sarcástica e totalmente sexy falando desse jeito. “Meu Deus, qual é a tua, garota. Aliás, por que diabos tu ta falando comigo? Eu não sou o filho da puta que tu não quer ver nem pintado de ouro? O idiota que não valeu as tuas expectativas, e, preciso frisar essa parte: que não valeu sequer os créditos do teu celular? Sim, porque essas foram as tuas palavras.”  “Boa pergunta. Por que to perdendo o meu tempo com você?” Ela cuspiu essas palavras com uma raiva estampada em cada músculo do corpo dela.  “Ótimo.” Soltei uma gargalhada que com certeza não soou nada sexy, tampouco agradável de ouvir. 
“Ótimo.” Ela inclinou a cabeça para frente, como se assim as palavras soassem mais fortes e assustadoras. “E quer saber? Eu odeio você.” Ela gritou e fez os pés em miniatura se locomoverem me deixando pra trás. 
“Da próxima vez me conte algo que eu não sei.” Falei alto o suficiente para que, não só ela ouvisse, mas também todos os pedestres que caminhavam na calçada. Me virei para observá-la. Se antes ela andava feito um esquilo, agora ela corre feito um quati que acaba de roubar comida de turistas. Ah cara, sei lá, eu realmente gostaria de acreditar que ela nunca fez diferença… Mas eu sinto falta, sabe? Da risada, do calcanhar estranho dela, da coleção estrondosa de saias, do cheiro daquele shampoo cítrico horrível, e de como ela me fazia acreditar em tudo. Como ela fazia valer a pena. E enquanto ela corre desse jeito horroroso nessa avenida sem fim nem começo, com esses pés minúsculos querendo engolir o mundo e com essa saia desejando alçar vôo e ela impedindo com as mãos incessantemente, eu percebo que, pô, sei lá, é ela, entende? É ela. E então eu começo a correr atrás dela feito um maníaco. “Até que para uma nanica como você, tu corre bastante.” Gritei, uns quinze metros longe dela, fazendo-a parar. “Me deixe em paz!” Ela grunhiu, sem olhar para trás. “Eu tentei, ta legal?” Parei de correr e me aproximei dela. “Você nunca consegue fazer nada certo!” Ela se virou, gritando, com os olhos mais pequenos do que o normal. “Eu sei… Mas é por isso que tu gosta de mim, certo?” “Errado.” Ela se virou novamente e voltou a andar. “Tu ta certa, sempre ta certa e eu to sempre errado. Assim ta bom? Eu fui o imbecil, canalha, filho da puta e idiota que pisou na bola o tempo todo. Não te mereci, e nunca vali qualquer perca de tempo da tua parte.” Pausei. Ela se virou outra vez e passou a me encarar. “Eu posso não ter dito a tempo, mas olha só, tu vale muito. É sério. Eu nunca tive certeza de nada, e me desculpe por isso, mas agora eu tenho, juro. Quero dizer, agora eu tenho certeza de que quero ficar com você.” Respirei fundo e a encarei. Nada. Andei alguns passos para que a nossa distância diminuísse. Nadinha. Nem sequer um sorriso, um piscar de olhos do tipo ‘pô, tu é o cara’, nem nada do tipo. Ela só ficou ali, parada. Me fitando como se eu fosse um idiota. “Tu não vai falar nada?” “Incrível!” Ela riu sarcástica. “Eu esperei isso da tua parte durante os oito meses que a gente ficou juntos e tu solta isso, justamente agora que é tarde demais?Parabéns!” Ela simulou uma salva de palmas. Ela poderia ter me agredido, me dado um tapa na cara, sei lá, mas ela optou por dizer que é tarde demais. Legal. “Tu sabe que a gente ainda pode tentar.” Devo ter soado meio desesperado porque ela me olhou com uma estranheza gigantesca. “Não.” E voltou a andar. Mas dessa vez ela não olhou pra trás. Ela só… Seguiu em frente. Como se eu fosse o cara mais idiota da face da Terra. E, talvez, ela tenha razão.

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